quarta-feira, 22 de junho de 2016

Caír aos poucos

Olhei me ao espelho hoje. Com olhar eu quero dizer, olhar com olhos de ver. Notar todos aqueles detalhes que eu adoro notar nas outras pessoas mas odeio ver em mim. Desabituei-me a fazê-lo. Não sou o tipo de pessoa agradável aos olhos, e neste momento, pelo que vejo no meu espelho, não sou agradável de todo.
Tenho marcas nas maçãs do rosto, e tenho-as mais salientes o que significa que perdi peso, provavelmente. Tenho a (pseudo)barba por fazer, obviamente está cheia de falhas (e só aqui entre nós parece-se bem mais com um monte de pelos púbicos que uma barba). Tenho o cabelo atado apesar de não ter cabelo suficiente para o atar bem, cai-me para a frente dos olhos mas não tenho paciência para o pentear. Tenho a mesma roupa à mais tempo do que devia. Uns calções cinzentos e um wife beater preto. Tenho um ar desleixado, de vagabundo.
Mas no entanto é no meu quarto que me sinto mais vagueante, inconstante, sufocado, confuso, meio-amnésico, farto, e acima de tudo, sozinho.
Sei que não o estou, mas nesta altura da minha vida é a única forma que me consigo sentir. Tantas decisões para fazer, e cada uma delas me faz sentir mais afastado de tudo.
A pressão das decisões apenas pode ser comparada aquela que se sente no fundo do mar. As expectativas estão tão altas e eu nunca gostei de ter expectativas de qualquer tipo.
A parede branca nunca esteve tão branca, o calor nunca esteve tão frio, as estrelas nunca estiveram tão longe, o whiskey nunca teve tão forte, a musica nunca esteve tão triste, e eu nunca me senti tão desinteressante.
As palavras escapam-me naturalmente e isso é mau sinal, porque posso acabar por dizer coisas que não queira.
O mundo está mesmo sem cabeça? Ou sou eu que a estou a perder aos poucos?

Escrevo muito, mas nada que se aproveite. Penso muito, mas nada que se aproveite.
Devia mudar de roupa.





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About me

Se, por algum lapso de consciência decidires ler mais alguma coisa que se siga a esta apresentação ficas já avisado que, das duas uma, ou vais deprimir ou vais dizer-me assim "fogo, és um triste", se pensares isso eu respondo-te, "não, eu sou feliz, tenho um pai e uma mãe que trabalham e uma irmã que é uma chata do caraças, tenho uma casa e comida na mesa todos os dias, por isso supostamente não tenho motivos para me queixar." Mas eu sempre fui do contra e dado a minha idade e teimosia arranjo sempre motivos para me queixar.