Hoje vi a rapariga mais bonita, sentada no metro em direção ao cais.
Não era bonita no sentido de o ser, era uma daquelas pessoas cuja beleza transcendia todas as leis da física, naquilo que constitui ser um ser e criava leis novas sobre algo que seria (na nossa linguagem em relação a este tipo de assuntos que apesar de sabermos muito, será sempre a de leigo) a beleza mais bonita que a soma da beleza de cada uma das suas partes.
Normalmente nós referimo-nos à como algo é bonito ou como aquela parte de algo é bonita, hoje naquela rapariga -
Só quero dizer que vou no comboio a escrever isto e só agora reparei que a minha estação já passou à muito -
vi algo, nos seus cabelos loiros; no livro que lia, as "1001 Noites"; e na forma como não tirava os olhos do livro, o metro podia ter saído dos carris e poderíamos ter morrido todos que ela continuaria enterrada no seu livro.
Quando os filósofos se perguntavam qual a origem da beleza e se esta seria ou não subjetiva, nota-se que nunca nenhum deles nunca terá visto esta rapariga, se tivessem visto saberiam que a origem da beleza estaria indiscutivelmente no observador e não no objeto em si, e a subjetividade da beleza seria ponto nulo assim que eles tivessem, por uma vez na sua mísera, pobre, rotineira, infeliz vida de filosofo, olhado para algo como eu olhei para aquela rapariga.
Eventualmente ela saiu na sua paragem, e eu na minha para provavelmente nunca mais a ver, terei ficado triste? Não. Como um velho Ricardo Reis provavelmente diria, por uma vez, ainda bem que esta rapariga não me disse o seu nome, não falou comigo, nem sequer olhou para mim mais que uma vez, ainda bem que se foi embora e me deixou com estas questões para sempre, pois a minha despedida anterior, a minha desvinculação abrupta à fonte da essência desta minha filosofia, foi assim rápida, indolor e necessária.
E provavelmente, ainda assim fiquei com mais memórias que aquelas que me serão saudáveis, pelo que vou ter que exorcizar estes momentos e questões do que teria sido.
Dedico assim este texto à menina do metro, que os teus cabelos loiros façam alguém feliz e que alguém te dê 1001 noites como naquele livro do qual não tiraste os olhos.
Daquele a quem quase fizeste repensar uma filosofia de vida sem sequer o olhares nos olhos
André
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